quarta-feira, 2 de maio de 2018

Até o fim


A memória de ações humanas fica presente na própria ação. A vida é dinâmica, e o movimento para que essas coisas, mesmo movendo, estejam presentes, requer bastante memória.

Minha escrita vem nessa tentativa de não esquecer o “essencial”. Sobre amar, comer, escutar, dançar. E também de não esquecer sobre a dor, a miséria, a violência e a resistência que se tem em querer se libertar.

Mudei pra Bahia a quase 3 meses, logo após uma “primeira visita” de 2 meses. “Dizem” que Salvador, terra de Oxum, é lugar de encontros. Quero falar de a pouco sobre cada encontro.

Começo compartilhando a receita sagrada e profana do Acarajé, aprendida com mulheres fortes. Já avisando de antemão que a cada preparo, também é preciso compartilhar com gente amiga e de raiz forte.



imagem ilustrativa, de verdade é sempre mais bonito que na foto


Ingredientes:

Acarajé
- 500gr de feijão fradinho
- 1 cebola grande
- sal a gosto
- 1 litro de azeite de dendê

Molho para Vatapá e Caruru
- 1 tomate
- 1 cebola
- 1 pimentão

Vatapá
- um punhado de amendoim torrado
- 1 pão dormido
- 1 copo de leite de coco
- gengibre e sal a gosto
- 2 colheres de dendê
- metade do molho

Caruru
- 10 quiabos
- 1 colher de vinagre
- sal e coentro fresco a gosto
- 2 colheres de dendê
- a outra metade do molho


Salada
- 2 tomates verdes e 1 vermelho
- sal e coentro fresco a gosto

Pimenta
- óleo de coco
- pimenta da sua picância favorita

Preparo do Acarajé

Deixe de molho o feijão fradinho, da noite pro dia. Descasque o feijão esfregando os grãos uns nos outros e tirando a casquinha. Escorra a água, e bata no liquidificador com a cebola e o sal (importante não acrescentar água, se ficar muito pesado, divida em partes, ou vá socando num pilão). Depois de bem pisado, se coloca a massa numa bacia, ou panela grande, e bate na mão com uma colher grande de pau. Convide amigxs pra ir revezando essa missão, pois o ponto da massa é demorado de alcançar. Precisa ficar bem leve, como uma clara em neve. O acarajé tem uma massa “dinâmica”, que precisa sempre estar em movimento (Esse dado quem me aportou foi a linda da Gabinha, mainha que me acolheu na primeira chegada). Tudo isso para que ao fritar o acarajé fique crocante por fora e fofíssimo por dentro. Ou seja, uma delícia.

Ah, já ia me esquecendo de algo fundamental sobre o Acarajé. O Acarajé, na cultura do Candomblé, é a comida de Xangô, conhecido como o Orixá guerreiro da justiça. Comer, segundo essa cosmovisão, é um ato sagrado, pois o alimento precisa dar suporte para o corpo e o espírito.

E de fato, comer é algo que eleva a força vital de cada ser. O Axé do Acarajé é altamente recomendável para encarar os sobes e desces da vida.

Mas bem… depois de encontrar o ponto da massa, você pode ir aquecendo o azeite de dendê para fritar os bolinhos. Este azeite atinge uma alta temperatura, assim que é preciso cuidado no momento de fritar, para que o acarajé não queime por fora. Também é importante que tenha azeite suficiente para que flutuem, assim cozinhando bem a parte de dentro.

Use duas colheres grandes, a de madeira que estava sendo usada para bater a massa, e uma de metal para moldar os bolinhos e soltar no azeite já quente. Lembrando que é preciso bater a massa a cada tanto, principalmente momentos antes de fritar, pois se não ela começa a soltar um líquido, como se dessorando e perdendo o ponto.



Quando o bolinho estiver bem dourado, como o sol poente, de ambos os lados, já dá pra retirar. O ideal que antes de fritar os acarajés os recheios já devam estar prontos. Então que vamos a eles:

Preparo do Vatapá

Deixe um pão dormido em remolho no leite de coco, durante, no mínimo uma meia hora. Coloque no liquidificador junto com o molho, o amendoim, o sal e o gengibre. Despeje a mistura numa panela e leve a fogo médio. Mexa sempre, em movimentos circulares. Quando começar a ferver, depois de uns 5 minutos, acrescente o azeite de dendê, e mexa por mais 5 minutos. Pronto, vamos ao próximo acompanhamento.

Preparo do Caruru

Lave e corte o quiabo em rodelas. Em uma panela altinha, cubra o quiabo com um dedo acima de água e o vinagre. Leve a fogo alto e deixe ferver por dez minutos. Escorra e acrescente o molho e o sal. Leve novamente ao fogo, dessa vez médio. Deixe ferver por uns 15 minutos, até o caruru engrossar. Acrescente o dendê e o coentro fresco 5 minutos antes de desligar.

Salada e Pimenta

Bom, para a salada basta picar os tomates em cubos e acrescentar o coentro fresco. E a pimenta, pique e pise as pimentas do seu agrado no óleo de coco, ou outro óleo que lhe for acessível.

Dependendo do tamanho que forem feitos os bolinhos, dá pra cortar no meio e rechear com os acompanhamentos. Tudo ao mesmo tempo agora.

Como eu tava dizendo antes, o Acarajé é um alimento dourado de muito axé. Logo precisa ser consumido com moderação e sabedoria. Sabe como é… luz demais também ofusca.

Caminhava na rua, antes de terminar esta receita, pensando em ganchos para seguir narrando meus encontros, a esse momento novo em minha vida de me abrir a viver novidades. É como lembrar de esquecer. Tentar ser inocente mesmo com o peito duro e doído, de quem lida com a morte e o seu silenciamento. Vou precipitando o fim do mundo, sambando miudinho, até o momento de dar o corte e deixar de perpetuar violências absurdas.

Aqui, bahía onde todxs chegamos, encontrar o ponto tem seu tempo. Sigo transando.


P.S.: Lembrei, quero sempre falar dos encontros com mulheres fortes… segue na próxima receita.





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