quarta-feira, 30 de setembro de 2015

O Umbigo da Madame Laranja

Alguns anos antes de minha mãe morrer, tenho a lembrança de comer laranjas no sol do inverno em sua companhia. Pacienciosamente, ela descascava, sem cortar um fio, enormes e suculentas laranjas de umbigo para o meu deleite.

Um dia elogiei sua destreza, então ela me olhou séria e me contou a história mais triste que já escutei da voz de alguém.

Minha mãe, Neuza, era filha de uma segunda geração de mucamas pós abolição, ironicamente chamadas de "filhas de criação". Vivia na fazenda da viúva Tuva, a qual lhe bancou os estudos em Porto Alegre, até a quarta série. Não seguiu estudando, pois foi estuprada e teve sua primeira filha aos 13 anos.

Do seu curto período estudantil, guarda a memória das visitas da "madrinha" que lhe levava laranjas de umbigo da fazenda onde vivia, no Mariano Pinto, interior de Alegrete. Mas Tuva, dentro do seu sadismo de branca e burguesa, impunha a condição de que sua "afilhada" era quem tinha que descascar com perfeição, para só então comer o umbigo das laranjas, enquanto a madame e as migues deleitavam as polpas suculentas.

Só sei que a minha mãe nunca lhe saiu tão bem o doce de laranja azeda. Mas é só o azedo, que me faz não esquecer dessa história. Então que aqui a compactuo, para que não se esqueça e não se omita essa crueldade e miséria humana que é a escravidão (seja ela qual for).
Doce de Laranja Azeda

12 laranjas azedas grandes e maduras (bem laranjas mesmo)
1 kg de açúcar
cravo e canela a gosto

Descasque ralando a pele da laranja. Corte cada laranja em quatro e deixe 12 horas de molho numa panela com água e duas colheres de cal, ou cinza (só não de cigarro, por favor).

Depois do remolho, lave as laranjas e prepare uma calda com o açúcar. Adicione as laranjas, cravo e canela. Daí é só deixar ferver até a calda ficar grossa, e as laranjas estiverem macias.

Não é meu doce favorito, mas aprendi a respeitá-lo por ser uma receita ancestral na família de minha mãe, que é casualmente composta só por mulheres.

Vamo las brujas!

E seguimos dançando, ensaiando os encontros com o vento.