sexta-feira, 24 de abril de 2015

Redescobrindo o Brasil. As aves que aqui gorjeiam, já não encontram o seu lugar.

Me sinto exilada dos caminhos que já percorri. Minha terra não tem palmeiras, tão pouco canta o sabiá. Essa terra não é minha, nem de ninguém, e apesar de poucos se acharem donos dela, é à ela que sou pertencente.

As sementes ganharam patentes, e graças ao tratado de livre comércio imposto pelos EUA, aqui na Colômbia guarda-las é um ato criminoso. Esse mesmo terror está prestes a ser implementado em vários outros países da América Latina, e o futuro alimentar desastroso, tão anunciado pelas grandes produções cinematográficas de ficção cientifica, está mais próximo do que se imagina.

Essa terra não é minha, mas onde posso me hospedar? Fechar meus ciclos, acompanhar as luas, e sangrar nas sementes? Há 515 anos tiraram tudo o que eu tinha. Tudo, só sobrou cinza, e as memórias que vivem nos corpos dos meus antepassados. Quero que meu corpo também seja território de lembrança, pra que se saiba o peso que é recomeçar carregando em si toda dor já suportada.

Sigo caminhando por essa terra, e busco exílio no sonho, na utopia. E como birra, vivo, e grito todas as histórias e receitas que ninguém quer contar, simplesmente porque o medo cala. Não quero ter medo da vida, mesmo que o futuro venha dotado de miséria o mundo nos preserva surpresas, e por elas sigo.

Pra hoje, memórias do saber culinário de minha mãe já falecida, de sementes que ela mesma cultivava.
feijão olho de pomba

Cabo de relho:
1 1/2 xic. de feijão "olho de pomba" (caupi, palomino, black eyed peas)
1 1/2 xic. de arroz
4 xic. de  água
1 colher de sopa de óleo
1 cebola
1 tomate
sal, manjericão e manjerona (à gosto)


Um dos grandes segredos da preparação dos grãos é o seu tempo em remolho. No caso desse feijão, oito horas (ou seja da noite anterior ao preparo) é suficiente. Cozinhe por volta de 20 min - meia hora em fogo alto em uma panela comum com 4 xic. de água, se for usar a panela de pressão máximo uns 10 min, apenas há que tomar cuidado, pois o olho de pomba cria bastante espuma no seu cozimento, assim como a ervilha, e pode tapar a saída do vapor.

Vigna unguiculata

Depois de cozido o feijão, coe os grãos e reserve o caldo. Em outra panela, coloque o óleo, e quando quente refogue a cebola com o arroz. Quando a cebola ficar transparente já dá pra adicionar os grãos, refogar mais um pouco, e pôr por último o tomate e os temperos. Quando tudo estiver cheirando e brilhando divinamente agregue 3 xic. do caldo do feijão. Agregue sal, tape e deixe cozinhar em fogo médio por volta de 10 a 15 min.

O olho de pomba é um dos meus feijões favoritos, não só pela beleza e o sabor do grão mas principalmente por sua história. É um feijão bastante conhecido na culinária judaíca, mas obviamente não foi a diáspora anti-semita que fez ele chegar até a américa. Bem antes, em outra diáspora, africanas, vindas da parte ocidental, trouxeram em seus cabelos esse grão de grande poder proteico e medicinal.


Bom saber que as sementes caminham mesmo quando exiladas de seus territórios. Seja nos turbantes, ou no corpo dos pássaros. Elas seguiram buscando a terra, brotando livres e selvagens. Pois a terra pulsa, e os tambores vibram.


quinta-feira, 16 de abril de 2015

Ritualizando as manhãs. Quão longe são as galáxias?

O que me faz gostar das manhãs é de que elas são cheias de novas possibilidades. É o momento do dia onde me desafio. Somo pra além da rotina. No momento do café planejo e reorganizo a vida pra levar, e a aquela outra de ter prazer e me sentir viva.

Mas, pra que esse cenário lindo e fantástico da vida possa engrenar, é muito importante manjar um pouco da arte de vadiar. E perceber na manha e na sagacidade um tempo que é só seu, e que ao mesmo tempo é pertencente à complexidade do universo.

Com o universo de possibilidades tropicais existentes no caribe colombiano, somado a minha paixão pela bruxaria, quero dizer, cozinha, estão acontecendo diversos encontros gastronômicos. Outro dia foram o côco e a manga. Primeiro chegou o côco. Estou numa investigação profunda sobre as suas possibilidades de ser comido. São muitas. 

Assim que pra começar um dia mais cósmico, uma batida (shake, vitamina, como queiram chamar).

Batida de manga com leite de côco

côco de zoinho tristes
Leite de côco:
1 côco
4 copos de água quente

Pra abrir o côco, primeiro se abre um dos olhinhos do côco, pra tirar a água do côco (pode beber que é delicia e rica em minerais). Depois, com o cabo de uma faca pesada (martelo, algo do tipo) vá dando golpes no meio do côco, enquanto se gira a fruta. O som deve passar de grave pra mais agudo, até que ele se parte no meio.

Pra tirar a polpa, vá cortando retângulos e impulsionando o côco a sair pra fora.

Sugiro liquidificar em duas partes, metade de um côco com dois copos de água quente. Se coa, e tcharã!
manga diliça

Voltando a batida

1 manga madura
2 copos de leite de côco
1 copo de gelo

Bata no liquidificador, e se achar necessário, adoce!
E se sobrar ainda rola de fazer um sorvete, que também fica diliça.


Mango verde con limón y sal.
O casamento dessas frutas se deu talvez pela abundância das duas por aqui. Gosto muito de ver como os coqueiros balançam com o vento da costa, e da sombra fresca das estrondosas mangueiras. A manga é uma fruta que tem meu coração há mais tempo que o côco, e por aqui tenho encontrado novas maneiras do seu preparo. Como é muito comum, nos postos de comida de rua, venderem manga verde com limão, sal e pimenta. Ainda não sou muito adepta, mas agora que pelas ruas as mangueiras estão com seus galhos repletos de frutos, estou pensando em ampliar meu gosto gastronômico com a manga. Saborear é preciso!

Enfim... Dado esse momento, creio que assim já se pode começar o dia.

Eu vou seguir em dimensões paralelas, de uma mesma dura realidade, que suporta ventos de poesia.




segunda-feira, 13 de abril de 2015

Hoje morreu o Eduardo Galeano. Decidi começar um livro de receitas.


Eu tive medo de que em algum momento todxs humanxs deixariam de ler. De interesar-se um pelo outro, ainda mais por essa coisa deliciosa que é inventar.

Tive... já não penso mais nisso. Ando num período de descrença. Tenho tido o azar de me topar com bastante gente mentirosa. Ainda bem que já fiz 30, e perdi o filtro. Pra encerrar essa etapa de desgosto mando beijo e passar bem (longe).

Estou no Caribe da Colômbia há alguns meses. As paisagens são as mais belas invenções do vento e do sol. As pessoas são invenções da mestiçagem, da dor e da alegria. As cidades são invenções dos narcotraficantes e da influência yanque.


Mas ultimamente tenho o coração esparramado. Às vezes ri, às vezes chora. Acho que vou ficar com sopro no coração, ou talvez soluço, pois ele anda com dificuldade de se comunicar com a razão.

Um corpo não ocupa mais de um lugar ao mesmo tempo, não é mesmo? Pois é, mas tem gente que acha que pode estar e viver e comover de forma onipresente. Que preguiça!

Mentir e inventar não são sinonimos, não pra mim. Pelo menos acredito no que invento.

E aí vai uma receita fácil que aprendi, e fuzionei, por aqui:


Arepas Antioquenhas
Arepas con Guacamole:

Arepas:
1 xic. de farinha de milho branco fina (ou amarelo)
1 xic. de água morna.
Sal a gosto

Misture a massa e de um descanço de 5 "minuticos".

Depois faça bolos, e os transforme em um tipo de mini-pizza. Cozinhe as arepas numa arepera (chapa ou frigideira) até que fiquem douradas.

Guacamole:
1 abacate no ponto "mousse"
Guacamole
1 cebola média
1 dente de alho
1 tomate médio
1 chili (ou a pimenta do seu gosto e a disposição)
Suco de 1 limão
Sal a gosto

Pique a cebola, e deixa ela de molho na água com gelo, e o suco 1/2 de limão. Com um garfo, se amassa o abacate, e bate com o resto do suco e sal a gosto, até virar um mousse. Pique o resto dos ingredientes e agregue ao abacate.

Daí é só se deliciar, já que pro amor anda dificil...


Mas Galeano, mesmo sem tua presença física, tu estás vivo nos livros, assim que vamos seguir tentando, afinal é preciso crer na invenção.

Até breve!