Me sinto exilada dos caminhos que já percorri. Minha terra não tem palmeiras, tão pouco canta o sabiá. Essa terra não é minha, nem de ninguém, e apesar de poucos se acharem donos dela, é à ela que sou pertencente.
As sementes ganharam patentes, e graças ao tratado de livre comércio imposto pelos EUA, aqui na Colômbia guarda-las é um ato criminoso. Esse mesmo terror está prestes a ser implementado em vários outros países da América Latina, e o futuro alimentar desastroso, tão anunciado pelas grandes produções cinematográficas de ficção cientifica, está mais próximo do que se imagina.
Essa terra não é minha, mas onde posso me hospedar? Fechar meus ciclos, acompanhar as luas, e sangrar nas sementes? Há 515 anos tiraram tudo o que eu tinha. Tudo, só sobrou cinza, e as memórias que vivem nos corpos dos meus antepassados. Quero que meu corpo também seja território de lembrança, pra que se saiba o peso que é recomeçar carregando em si toda dor já suportada.
Sigo caminhando por essa terra, e busco exílio no sonho, na utopia. E como birra, vivo, e grito todas as histórias e receitas que ninguém quer contar, simplesmente porque o medo cala. Não quero ter medo da vida, mesmo que o futuro venha dotado de miséria o mundo nos preserva surpresas, e por elas sigo.
Pra hoje, memórias do saber culinário de minha mãe já falecida, de sementes que ela mesma cultivava.
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| feijão olho de pomba |
Cabo de relho:
1 1/2 xic. de feijão "olho de pomba" (caupi, palomino, black eyed peas)
1 1/2 xic. de arroz
4 xic. de água
1 colher de sopa de óleo
1 cebola
1 tomate
sal, manjericão e manjerona (à gosto)
Um dos grandes segredos da preparação dos grãos é o seu tempo em remolho. No caso desse feijão, oito horas (ou seja da noite anterior ao preparo) é suficiente. Cozinhe por volta de 20 min - meia hora em fogo alto em uma panela comum com 4 xic. de água, se for usar a panela de pressão máximo uns 10 min, apenas há que tomar cuidado, pois o olho de pomba cria bastante espuma no seu cozimento, assim como a ervilha, e pode tapar a saída do vapor.
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Vigna unguiculata |
O olho de pomba é um dos meus feijões favoritos, não só pela beleza e o sabor do grão mas principalmente por sua história. É um feijão bastante conhecido na culinária judaíca, mas obviamente não foi a diáspora anti-semita que fez ele chegar até a américa. Bem antes, em outra diáspora, africanas, vindas da parte ocidental, trouxeram em seus cabelos esse grão de grande poder proteico e medicinal.
Bom saber que as sementes caminham mesmo quando exiladas de seus territórios. Seja nos turbantes, ou no corpo dos pássaros. Elas seguiram buscando a terra, brotando livres e selvagens. Pois a terra pulsa, e os tambores vibram.


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